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Pausa

Droga, vermelho. Meu encontro estava marcado para as três. Já eram três e quinze e, aparentemente, todos os semáforos da cidade resolveram me atrasar ainda mais. Foi quando eu o vi. Ele era moreno, alto, tão jovem quanto eu. Seria bonito se não estivesse tão mal vestido. O rapaz, os sacos plásticos no chão, a livraria ao fundo e a senhora obesa que o observa formavam um lamentável quadro urbano. Minha tristeza foi física quando notei a urgência com que o rapaz arrancava o que podia da sacola de lixo e comia vorazmente. O grito horrorizado de Bandeira ecoou em meus pensamentos: “O bicho, meu Deus, era um homem!”. O bicho homem transformado em homem bicho. Intimamente, critiquei a atitude da mulher que o observava, estática. Julguei que ela deveria fazer algo: ajudar, parar de olhar, não sei ao certo. Mas deveria.. alguém deveria.. Verde, enfim. Graças, eu mal podia esperar, estava faminta.

no Cais

O salto da minha sandália, enquanto eu caminhava, vez por outra ficava preso entre as vigas de madeira, mas o Cais era lindo. Pelo menos deveria ser, durante o dia. Não  posso dizer ao certo. Aquela noite eu estava atordoada, com meus sentidos embaralhados e o maldito salto, num ritmo irregular e irritante que acompanhava o meu caminhar desajeitado, continuava a cair entre as frestas das tábuas do chão. O sabor exótico do jantar ainda estava em minha boca. A comida sofisticada não agradara ao meu paladar. O vestido que eu escolhera não era curto, mas, definitivamente, não combinava com vento do Cais. Era uma madrugada de verão insuportavelmente fria num país insuportavelmente estrangeiro. Corrijo-me. Era uma noite insuportavelmente fria e eu era insuportavelmente estrangeira. O que incendiava a avenida era o idioma caliente e o tango nas calçadas. A sensualidade dos casais era palpável, me embriagava. Ou era o vinho? Não posso dizer ao certo. Com as sandálias nas mãos, continuei a  andar pelo Cais. As sensações me invadiam, fortes e costantes. A noite gelada, o vento forte, o assoalho de madeira sob meus pés descalços, a escuridão da madrugada, a solidão de um país estranho, o calor daquele idioma latino que maltratava minha audição… Os sentidos se misturaram, trôpegos e velozes, e caíram no lugar-comum dos sentimentos inintelegíveis.
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ditado plural

Quem sente e cala, quem cala e sente, quem cala com quem sente: consente. Quem, cá e lá, consente e cala: sente. Quem cala com: sente.

por Cainan Fillipe

Urgência

Busca-me. Encontra-me. Longe. Ao longe. Busca-me no último suspiro de uma nota musical. Encontra-me no cheiro de uma flor orvalhada. Grita-me em meio ao delírio de uma tempestade. Procura-me no seu melhor devaneio. “Busca-me onde a ilusão teve filhos”. Encontra-me no limite entre o concreto e o abstrato. Sem condições. Sem restrições. Encontra-me na vulgaridade de um ‘a qualquer hora, em qualquer lugar’. Desejo que me busques. Mas, bem mais, preciso que me encontres.

“Bom dia, Âmara”, ele me disse sorrindo quando eu entrei a sala.
Não sei com exatidão o que me maravilhou naquela cena. Talvez tenha sido a polidez do seu ‘Bom dia’. Ou o contraste entre a sinceridade do seu sorriso bem educado e o trânsito frenético que eu acabara de enfrentar. Talvez.
Contudo, acho que o mais fascinante naquela simples cordialidade foi ouví-lo pronunciar meu nome. Pronunciar corretamente, digo. Â-MA-RA. Proparoxítona. Primeiro ‘a’ com som nasal fechado. Âmara.
Ele não me conhecia e dificilmente me veria novamente naquele ano, mas a frase que pronunciara me deixou à vontade para falar-lhe do meu problema. Por um momento, esqueci de minhas dores e lhe sorri em troca. Bom dia. E pronunciei seu nome.
Chamar o outro pelo nome criou ali um clima de amenidade entre dois estranhos habituados à brutalidade da selva urbana. Essa atitude, tão simplória, foi capaz de tornar agradável uma situação que, rotineiramente, seria apenas mais uma obrigação cumprida com pesar.
“Tchau, Âmara. Se precisar, volte aqui.”
Sim, claro. Assim que eu precisar de um médico, voltarei ao mesmo consultório em que fui aquela manhã. Afinal, ele me chamou pelo nome.

maos“Bom dia, Âmara”, ele me disse sorrindo quando eu entrei na sala.

Não sei com exatidão o que me maravilhou naquela cena. Talvez tenha sido a polidez do seu ‘Bom dia’. Ou o contraste entre a sinceridade do seu sorriso bem educado e o trânsito frenético que eu acabara de enfrentar. Talvez.

Contudo, acho que o mais fascinante naquela simples cordialidade foi ouví-lo pronunciar meu nome. Pronunciar corretamente, digo. Â-MA-RA. Proparoxítona. Primeiro ‘a’ com som nasal fechado. Âmara.

Ele não me conhecia e dificilmente me veria novamente naquele ano, mas a frase que pronunciara me deixou à vontade para falar-lhe do meu problema. Por um momento, esqueci de minhas dores e lhe sorri em troca. Bom dia. E pronunciei seu nome.

Chamar o outro pelo nome criou ali um clima de amenidade entre dois estranhos habituados à brutalidade da selva urbana. Essa atitude, tão simplória, foi capaz de tornar agradável uma situação que, rotineiramente, seria apenas mais uma obrigação cumprida com pesar.

“Tchau, Âmara. Se precisar, volte aqui.”

Sim, claro. Assim que eu precisar de um médico, voltarei ao mesmo consultório em que fui aquela manhã. Afinal, ele me chamou pelo nome.

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