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Archive for the ‘Feel and let go’ Category

no Cais

O salto da minha sandália, enquanto eu caminhava, vez por outra ficava preso entre as vigas de madeira, mas o Cais era lindo. Pelo menos deveria ser, durante o dia. Não  posso dizer ao certo. Aquela noite eu estava atordoada, com meus sentidos embaralhados e o maldito salto, num ritmo irregular e irritante que acompanhava o meu caminhar desajeitado, continuava a cair entre as frestas das tábuas do chão. O sabor exótico do jantar ainda estava em minha boca. A comida sofisticada não agradara ao meu paladar. O vestido que eu escolhera não era curto, mas, definitivamente, não combinava com vento do Cais. Era uma madrugada de verão insuportavelmente fria num país insuportavelmente estrangeiro. Corrijo-me. Era uma noite insuportavelmente fria e eu era insuportavelmente estrangeira. O que incendiava a avenida era o idioma caliente e o tango nas calçadas. A sensualidade dos casais era palpável, me embriagava. Ou era o vinho? Não posso dizer ao certo. Com as sandálias nas mãos, continuei a  andar pelo Cais. As sensações me invadiam, fortes e costantes. A noite gelada, o vento forte, o assoalho de madeira sob meus pés descalços, a escuridão da madrugada, a solidão de um país estranho, o calor daquele idioma latino que maltratava minha audição… Os sentidos se misturaram, trôpegos e velozes, e caíram no lugar-comum dos sentimentos inintelegíveis.
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Urgência

Busca-me. Encontra-me. Longe. Ao longe. Busca-me no último suspiro de uma nota musical. Encontra-me no cheiro de uma flor orvalhada. Grita-me em meio ao delírio de uma tempestade. Procura-me no seu melhor devaneio. “Busca-me onde a ilusão teve filhos”. Encontra-me no limite entre o concreto e o abstrato. Sem condições. Sem restrições. Encontra-me na vulgaridade de um ‘a qualquer hora, em qualquer lugar’. Desejo que me busques. Mas, bem mais, preciso que me encontres.

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“Bom dia, Âmara”, ele me disse sorrindo quando eu entrei a sala.
Não sei com exatidão o que me maravilhou naquela cena. Talvez tenha sido a polidez do seu ‘Bom dia’. Ou o contraste entre a sinceridade do seu sorriso bem educado e o trânsito frenético que eu acabara de enfrentar. Talvez.
Contudo, acho que o mais fascinante naquela simples cordialidade foi ouví-lo pronunciar meu nome. Pronunciar corretamente, digo. Â-MA-RA. Proparoxítona. Primeiro ‘a’ com som nasal fechado. Âmara.
Ele não me conhecia e dificilmente me veria novamente naquele ano, mas a frase que pronunciara me deixou à vontade para falar-lhe do meu problema. Por um momento, esqueci de minhas dores e lhe sorri em troca. Bom dia. E pronunciei seu nome.
Chamar o outro pelo nome criou ali um clima de amenidade entre dois estranhos habituados à brutalidade da selva urbana. Essa atitude, tão simplória, foi capaz de tornar agradável uma situação que, rotineiramente, seria apenas mais uma obrigação cumprida com pesar.
“Tchau, Âmara. Se precisar, volte aqui.”
Sim, claro. Assim que eu precisar de um médico, voltarei ao mesmo consultório em que fui aquela manhã. Afinal, ele me chamou pelo nome.

maos“Bom dia, Âmara”, ele me disse sorrindo quando eu entrei na sala.

Não sei com exatidão o que me maravilhou naquela cena. Talvez tenha sido a polidez do seu ‘Bom dia’. Ou o contraste entre a sinceridade do seu sorriso bem educado e o trânsito frenético que eu acabara de enfrentar. Talvez.

Contudo, acho que o mais fascinante naquela simples cordialidade foi ouví-lo pronunciar meu nome. Pronunciar corretamente, digo. Â-MA-RA. Proparoxítona. Primeiro ‘a’ com som nasal fechado. Âmara.

Ele não me conhecia e dificilmente me veria novamente naquele ano, mas a frase que pronunciara me deixou à vontade para falar-lhe do meu problema. Por um momento, esqueci de minhas dores e lhe sorri em troca. Bom dia. E pronunciei seu nome.

Chamar o outro pelo nome criou ali um clima de amenidade entre dois estranhos habituados à brutalidade da selva urbana. Essa atitude, tão simplória, foi capaz de tornar agradável uma situação que, rotineiramente, seria apenas mais uma obrigação cumprida com pesar.

“Tchau, Âmara. Se precisar, volte aqui.”

Sim, claro. Assim que eu precisar de um médico, voltarei ao mesmo consultório em que fui aquela manhã. Afinal, ele me chamou pelo nome.

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chuvaEscuto a música surda de uma noite de luar. Um sonoro aroma de paz. Aaaah, paz. Um estalo. Outro. E outro. O céu se desmancha em gotas, que caem. Milhares de portas abertas. Que caem. Dissolvem infinitas possibilidades e caem. Caem em meio a euforia do novo. Caem e trazem sempre as mesmas novas experiências. Jovens. Livres. Despreocupadas. Que caem. Caem com um ‘quê’ de pecado. Caem e exalam o inebriante perfume da liberdade. Intenso. Extasiante. Envolvente. Avassalador. Gotas que caem. Na euforia do novo, caem. Caiam, lavem e levem. Caiam, me lavem e levem. Caiam, lavem e me levem. Me deixem dormir. Me façam sonhar.

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sonho

Era fim de tarde, mas já se podia vislumbrar a lua cheia. Como de costume, corro para o ar livre, a fim de fotografar. Um belíssimo quadro. Meu corpo celeste favorito exibia sua beleza arrogantemente. Estava maior do que de costume. Assustadoramente maior e continuava crescendo.

De súbito, a lua começou a queimar e a cair. Em direção ao solo, emitia laberedas e incendiava o que deixava para trás. Ela se aproxivamava cada vez mais e fatalmente chegaria até mim. Tão logo cheguei a essa conclusão, o medo me invadiu. Procurei uma forma de evitar a colisão, mas a bola de fogo estava muito próxima.

Dúvida, medo e ansiedade se misturaram à fascinação que a cena me trazia. O céu exibia uma infinidade de cores que eu jamais vira e as labaredas o atravessavam elegantemente. Como era possível que a iminência de uma tragédia pudesse provocar medo e paz? Não poderia haver nada mais belo ou fascinante, indiscutivelmente.

No instante fatal, fechei meus olhos e apenas senti a luz. Acho que não poderia estar mais feliz. A lua ou sol, não sei ao certo, me atravessou. Fiquei ali parada por alguns momentos. Ao redor de mim, havia fogo que se dissipava. Eu estava intacta, viva.

Havia sol, havia lua, havia fogo, havia medo, havia cores, havia luz, havia paz.

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