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Posts Tagged ‘Selva urbana’

Droga, vermelho. Meu encontro estava marcado para as três. Já eram três e quinze e, aparentemente, todos os semáforos da cidade resolveram me atrasar ainda mais. Foi quando eu o vi. Ele era moreno, alto, tão jovem quanto eu. Seria bonito se não estivesse tão mal vestido. O rapaz, os sacos plásticos no chão, a livraria ao fundo e a senhora obesa que o observa formavam um lamentável quadro urbano. Minha tristeza foi física quando notei a urgência com que o rapaz arrancava o que podia da sacola de lixo e comia vorazmente. O grito horrorizado de Bandeira ecoou em meus pensamentos: “O bicho, meu Deus, era um homem!”. O bicho homem transformado em homem bicho. Intimamente, critiquei a atitude da mulher que o observava, estática. Julguei que ela deveria fazer algo: ajudar, parar de olhar, não sei ao certo. Mas deveria.. alguém deveria.. Verde, enfim. Graças, eu mal podia esperar, estava faminta.

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“Bom dia, Âmara”, ele me disse sorrindo quando eu entrei a sala.
Não sei com exatidão o que me maravilhou naquela cena. Talvez tenha sido a polidez do seu ‘Bom dia’. Ou o contraste entre a sinceridade do seu sorriso bem educado e o trânsito frenético que eu acabara de enfrentar. Talvez.
Contudo, acho que o mais fascinante naquela simples cordialidade foi ouví-lo pronunciar meu nome. Pronunciar corretamente, digo. Â-MA-RA. Proparoxítona. Primeiro ‘a’ com som nasal fechado. Âmara.
Ele não me conhecia e dificilmente me veria novamente naquele ano, mas a frase que pronunciara me deixou à vontade para falar-lhe do meu problema. Por um momento, esqueci de minhas dores e lhe sorri em troca. Bom dia. E pronunciei seu nome.
Chamar o outro pelo nome criou ali um clima de amenidade entre dois estranhos habituados à brutalidade da selva urbana. Essa atitude, tão simplória, foi capaz de tornar agradável uma situação que, rotineiramente, seria apenas mais uma obrigação cumprida com pesar.
“Tchau, Âmara. Se precisar, volte aqui.”
Sim, claro. Assim que eu precisar de um médico, voltarei ao mesmo consultório em que fui aquela manhã. Afinal, ele me chamou pelo nome.

maos“Bom dia, Âmara”, ele me disse sorrindo quando eu entrei na sala.

Não sei com exatidão o que me maravilhou naquela cena. Talvez tenha sido a polidez do seu ‘Bom dia’. Ou o contraste entre a sinceridade do seu sorriso bem educado e o trânsito frenético que eu acabara de enfrentar. Talvez.

Contudo, acho que o mais fascinante naquela simples cordialidade foi ouví-lo pronunciar meu nome. Pronunciar corretamente, digo. Â-MA-RA. Proparoxítona. Primeiro ‘a’ com som nasal fechado. Âmara.

Ele não me conhecia e dificilmente me veria novamente naquele ano, mas a frase que pronunciara me deixou à vontade para falar-lhe do meu problema. Por um momento, esqueci de minhas dores e lhe sorri em troca. Bom dia. E pronunciei seu nome.

Chamar o outro pelo nome criou ali um clima de amenidade entre dois estranhos habituados à brutalidade da selva urbana. Essa atitude, tão simplória, foi capaz de tornar agradável uma situação que, rotineiramente, seria apenas mais uma obrigação cumprida com pesar.

“Tchau, Âmara. Se precisar, volte aqui.”

Sim, claro. Assim que eu precisar de um médico, voltarei ao mesmo consultório em que fui aquela manhã. Afinal, ele me chamou pelo nome.

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